Carneiros Santa Inês

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CARNEIRO RAÇA SANTA INÊS

Fonte: Boletim Pecuário

A raça Santa Inês é resultado do cruzamento entre a raça Bergamácia e a Morada Nova. Esta explicação foi dada pelo

Prof Octávio Domingues, quando perambulava pelo Ceará.

Acontece que a Bergamácia tem origem na Itália e, portanto, é pouco provável que tenha sido introduzida no Brasil no período colonial e imperial. Não existiam animais Bergamascos naquela ocasião! A raça Bergamácia deve ter chegado ao Brasil no período das imigrações italianas, ou seja, a partir do final do século passado, alongando-se até 1930.

carneiros dorper e santa ines

E mais! – estas imigrações destinavam-se a conseguir mão-de-obra eficiente e barata para os cafezais do sudeste (São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro) e, assim, fica mais difícil ainda tentar explicar a existência de algum Bergamasco no Nordeste e, principalmente, no Ceará, no final do século. Se algum Bergamasco havia chegado, teria ficado no udeste e jamais no Nordeste. Os poucos Bergamascos nordestinos teriam sido remetido para lá, bem depois!

Antes disso muitas outras raças já povoavam o Nordeste brasileiro. Elas haviam vindo da África, por meio dos navios negreiros e também de Portugal e da Espanha. A origem do Santa Inês, portanto, seria melhor explicada, depois de analisar as possíveis influências ibéricas ou africanas.

No inicio do século XX era comum denominar o ancestral do “Santa Inês” de “Zebu”, devido ás suas longas orelhas. O carneiro “Zebu” continua existindo, até hoje, nos diversos Estados nordestinos, desfilando longas orelhas e muita rusticidade. A expansão do Zebu orelhudo batizou o carneiro também orelhudo com o mesmo nome.

Ademais, o Santa Inês era, inicialmente, de pelagem vermelha (“pelo-de-boi”) oriundo de um rebanho Morada nova vermelho vindo do Ceará e introduzido pela Secretaria de Agricultura do Estado, em 1948, mas, rapidamente, ganhou novas pelagens: negra, lavrada, rajada, multicolorida, tartarugada, etc. De onde teriam vindo essas pelagens? Da Itália, jamais Da Espanha, também não. De Portugal também não. Então1 a explicação estaria apenas na África.

No encontro realizado em 1977, em Fortaleza, a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos, estabeleceu o “Registro Genealógico dos tipos de raças ovinas do Nordeste”, eliminando, em parte, a confusão dos mestiços, englobando-os com a denominação de Santa Inês.

A raça Santa Inês é, portanto, um documento vivo sobre a vinda de carneiros e cabras africanas. Os negros eram perseguidos até á exaustão, em sua terra natal e, depois aprisionados e atirados nos navios negreiros, juntamente com suas poucas ovelhas e cabras!
A história registra que, entre 1640 e 1750, quando os holandeses dominavam o Nordeste brasileiro, já existiam ovelhas do tipo Morada Nova. Na verdade, existem muitas raças africanas parecidas com o Morada Nova. Quando os holandeses estavam travando as últimas guerras no Brasil e perceberam que iriam perder tudo, trataram de levar a tecnologia da cana de açúcar para a América Central e, juntamente, com ela, seguiram também muitos carneiros. Os holandeses trataram de levar tudo que havia de melhor! E foram para a ilha de Barbados!

Hoje, a raça “Pelibuey” (que quer dizer “Pelo-de-boi”) é tida como originária da ilha de Barbados e predomina nos Estados Unidos, México e outros países. O “Pelibuey” é um Santa Inês de orelhas mais curtas – muito preferido nos Estados Unidos, onde existem até Programas de Melhoramento Genético para ele.

Os animais enviados para a ilha de Barbados, pelos holandeses, deram origem, também, á raça “Blackbelli” (significa “Barriga-Negra”) que, hoje, também vem sendo segregada e selecionada no -Nordeste por alguns estudiosos, a partir de ocorrências dentro da raça Morada Nova e Santa Inês.

O Santa Inês, portanto, deu origem ás duas raças deslanadas mais famosas do mundo ocidental! Ao invés de ficar injetando sangue estranho no Santa Inês, os criadores poderiam importar animais “Pelibuey” e “Blackbelli”, os quais não provocariam qualquer dissociação genética, pois são originários do próprio Santa Inês. Esta seria uma boa medida para aqueles que gostam de praticar cruzamentos.

Origem africana -Quais as raças africanas que poderiam ter influenciado o Santa Inês? As mais prováveis seriam as raças de Sahel, das ilhas Virgem, a “Forest Savannah” e suas derivadas da Costa do Marfim, “Polied Forest”, etc. Foram esses animais africanos que deram origem ao carneiro

“Africano”, na Colômbia, muito semelhante ao brasileiro Santa Inês, mas com orelhas mais curtas.
Por outro lado, cabe lembrar que, no Brasil, continuam nascendo muitos carneiros com orelhas curtas até hoje. Trata-se de uma influência da raça Somalis, tanto de cabeça negra como vermelha. O registro genealógico no entanto, penaliza os animais de orelhas curtas!

É importante observar que as variedades originárias do Sudão são muito semelhantes ao Santa Inês moderno…e com orelhas Iongas ou medianas. A África, portanto, ainda não mostrou toda sua pujança em termos de ovinos: lá existem carneiros de orelhas medianas e chanfro semi convexo, exatamente como o Santa Inês, já com alguma influência de raças de rabo largo (como o Somalis). Encontram-se na Nigéria, Algéria, costa oeste, etc. Existem apontamentos da raça Maltesa (da Ilha de Malta, na África) no Brasil, que apresenta lã apenas sobre os flancos.

O Santa Inês, portanto, poderia ser oriundo apenas de cruzamentos indiscriminados de várias raças africanas…

A “maldição dos 100 anos”, ou seja, a Grande Seca de 1877, que durou até 1883, dizimou 50% da população humana do Ceará e praticamente todo o rebanho bovino. A tragédia atingiu o Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, com intensidade jamais observada. Até essa época, os pecuaristas seguiam a tradição europeia de criação, ou seja, eles não misturavam raças. Não se falava em cruzamentos, naqueles tempos. De fato, os cruzamentos surgiram no final do século, na Inglaterra e, depois, na Europa.

Já no Nordeste, devido á Grande Seca, é fácil supor que os animais resistentes africanos tenham sido, nessa ocasião, acasalados com os carneiros de elite, das raças Churra, Bordalera, e qualquer outro que estivesse recebendo bons tratos dos proprietários. Esta seria uma explicação para o surgimento da futura raça Morada Nova e consequentemente, do Santa Inês.

Também é lícito acreditar que os animais africanos que conseguiram sobreviver á tragédia deram origem á raça Morada Nova, em forma pura. Assim, a raça Morada Nova moderna nada mais seria que a homóloga brasileira de raças africanas.

Origem Europeia – Existem várias raças que facilmente poderiam ter chegado ao Brasil, oriundas de Portugal, da Espanha e das regiões limítrofes da França. Não é á toa que se encontram, no Nor-deste sertanejo, animais lanados das raças Merino, Manchega, Ojalado, Talayera na, Bordalera e a Churra.

Essas raças, acasaladas com os animais africanos, teriam dado origem ao Morada Nova ou, pelo menos, aumentado o número de animais com aquela caracterização.

No início do século XX, os animais de meia orelha teriam sido cruzados com algum macho da raça Bergamácia e, então surgiram orelhas longas, bem ao gosto do zebuzeiro” da época A raça Bergamácia, de grande porte chega a pesar 30 kg aos 24 meses, rendendo até 70 kg carne limpa. Levada para a França, a raça Bergamácia também recebeu o nome de “Piemontesa”.

Os portugueses mantinham forte relacionamento com a colônia indiana e lá existem várias raças de ovinos de orelhas medianas ou longas, assemelhadas ao Santa Inês. Os navios poderiam ter trazido para o Brasil muitos animais durante o período colonial e imperial. No início do século XX muitos mineiros viajavam e traziam bovinos. Na região de embarque, província de Nellore, em Madras, havia a raça “Nellore”, muito semelhante ao Santa Inês. As longas viagens exigiam um bom estoque de comida e os carneiros viajavam, dessa maneira, pelos mares. As cabras Bhuj e Jamnapan chegaram ao Brasil pelas mãos dos importadores de gado Zebu. Provavelmente teriam trazido também carneiros que acabaram não ficando registrados na História.

Para complicar ainda mais, os carneiros da Bahia e Sergipe, durante as décadas de 1930/50 passaram por forte influência de reprodutores de raças europeias. Ficou famosa a linhagem “Cara-Negra”, de grande porte, crânio liso, limpo, comprido, de orelhas medianas ou longas. Era fruto de acasalamentos entre o Suffolk e as ovelhas nordestinas.

Com o surgimento do Livro de Registros Genealógicos, o “Cara-Negra” sofreu uma queda mas ainda existem muitos criadores que mantém animais com essa caracterização. E outros, continuam utilizando reprodutores “Caras-Negras” para garantir maior porte aos animais.

Por outro lado, centenas de criadores tradicionais passaram a utilizar outras raças exóticas, como o Texel, o Hampshire, o Ideal, etc. para garantir bons produtos cruzados que acabam sendo vendidos como “Santa Inês”.

Na segunda e terceira geração, muitos conseguem até ser registrados como “puros-de-origem Santa Inês”.

Em São Paulo, foram utilizados reprodutores Wiltshire sobre animais nordestinos e, depois de algumas gerações, todos podiam ser registrados.

Assim, o Santa Inês constitui um “coquetel” de raças. Cabe aos criadores inteligentes separar o joio do trigo, pois os juízes, nas pistas de julgamento, não tem nem terão coragem suficiente para desclassificar animais vistosos, grandiosos, pesados, graúdos, que surgem por todos os lados, todos os dias.

Especificações da raça: A cabeça é de tamanho médio; ausência de chifres; focinho alongado; perfil semi convexo; narinas proeminentes com mucosas pigmentadas (exceção da variedade branca); boa separação dos olhos. Orelhas de tamanho médio, cobertas de pelos, em formas de lanças, com inserção firme e um pouco inclinada na direção do comprimento da cabeça. Pescoço bem inserido no tronco, com dorso reto, podendo apresentar uma pequena depressão após a cernelha. Garupa levemente inclinada, apoiando sobre membros com ossos vigorosos cascos escuros ou brancos. O comprimento da cauda e médio, não passando das jarretes.

Uma coisa é certa: o Santa Inês é grande, deslanado, prolífico e rústico. Enquanto continuar assim, a raça somente terá um bom futuro. Afinal, o Brasil poderia contar com um rebanho de mais de 100 milhões de carneiros deslanado e está muito longe disso. Afinal, a Austrália tem um rebanho de 128 milhões! Só o Santa Inês Poderia garantir um rebanho dessa magnitude pois ele já está provado no Nordeste, na Amazônia e em toda a região Sudeste, suportando todas as possibilidades de cruzamentos com outras raças. E todos seus produtos recebem o nome de “Santa Inês” – com muito orgulho!

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Revista O Berro – Editora Agropecuária Tropical – Coletânea de várias Edições

Fonte: Boletim Pecuário